Sabe porque as parteiras no passado davam uma palmada nas nádegas do recém-nascido?

Eu digo-lhe.

Se não é filho de extraterrestre, clone de computador e nasceu no século vinte, deve ter experienciado a prática antiga de chegada a este mundo, uma praxe de boas vindas para lhe provocar o primeiro choro e levar ar aos pulmões.

Hoje já não dão açoites à chegada do recém-nascido, o puto apanha mais tarde, leva umas lambadas quando começar a fazer birras, cuspir a sopa no rosto da mãe ou atirar o gato pela janela.

Eu não tinha gato nem sopa para cuspir, mas apanhava na mesma. Levar lambadas em criança era um hábito dos mais velhos para aquecer as mãos nos dias de frio.

Quer saber mais?

Leia "Açoites à nascença", um evento da minha história de vida que hoje criei para si.


#1 Açoites à nascença

Vim ao mundo num dia de inverno. Na aldeia serrana o frio abraçava a casa. Na cozinha em redor das panelas do caldo, os mais velhos envoltos em casacões e xailes acenderam a fogueira para acalorar as mãos.

Penachos de fumo revoavam na cabana acanhada e esvaíam-se em fiapos pelo telhado escurecido para engrossar as neblinas do anoitecer.

No colchão enchumaçado com folhelho de milho a minha mãe gemia. Eu permanecia resguardado no ventre volumoso sem vontade de enfrentar a invernia.

Estava agasalhado. Seguro.

Empurrado para o exterior caí com arrepios de frio nas mãos calosas da comadre Zefa.

Estremeci. Que porra é esta?

Quis regressar ao abrigo da placenta, ao agasalho da minha mãe, mas a comadre pegou-me pelos pés e arriou-me um par de palmadas nas nádegas franzinas.

Arregalei os olhos, espantado, quedo e mudo. Que mundo é este, acabei de chegar e sou recebido com porrada e zero graus? Se aquilo era aquecimento para me manter vivo, melhor seria enrolarem-me num cobertor.

Foram os primeiros açoites dos muitos que apanhei na minha vida. Mas naquele distante inverno não esperava tão severa recepção. Também não sabia o que esperar.

Percebi a preocupação da minha mãe quando perguntou à Zefa: "Está vivo? É perfeito?" A Zefa espreitou-me os olhos, apalpou-me os tomates, virou-me de cabeça para baixo e arriou-me de novo.

Soltei um primitivo queixume.

Safa-se, disse a Zefa, o fedelho está engelhado mas safa-se.


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#1 Açoites à nascença
#2 O mundo visto da cesta
#3 Já fui um ser alado
#4 Pecados por confessar
#5 Por um pedaço de pão
#6 A sacola e os calções
#7 O milagre de Jesus
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