Vim ao mundo num dia de inverno. Na aldeia serrana o frio abraçava a casa. Na cozinha em redor das panelas do caldo, os mais velhos envoltos em casacões e xailes acenderam a fogueira para acalorar as mãos.
Penachos de fumo revoavam na cabana acanhada e esvaíam-se em fiapos pelo telhado escurecido para engrossar as neblinas do anoitecer.
No colchão enchumaçado com folhelho de milho a minha mãe gemia. Eu permanecia resguardado no ventre volumoso sem vontade de enfrentar a invernia.
Estava agasalhado. Seguro.
Empurrado para o exterior caí com arrepios de frio nas mãos calosas da comadre Zefa.
Estremeci. Que porra é esta?
Quis regressar ao abrigo da placenta, ao agasalho da minha mãe, mas a comadre pegou-me pelos pés e arriou-me um par de palmadas nas nádegas franzinas.
Arregalei os olhos, espantado, quedo e mudo. Que mundo é este, acabei de chegar e sou recebido com porrada e zero graus? Se aquilo era aquecimento para me manter vivo, melhor seria enrolarem-me num cobertor.
Foram os primeiros açoites dos muitos que apanhei na minha vida. Mas naquele distante inverno não esperava tão severa recepção. Também não sabia o que esperar.
Percebi a preocupação da minha mãe quando perguntou à Zefa: "Está vivo? É perfeito?" A Zefa espreitou-me os olhos, apalpou-me os tomates, virou-me de cabeça para baixo e arriou-me de novo.
Soltei um primitivo queixume.
Safa-se, disse a Zefa, o fedelho está engelhado mas safa-se.
