Aquele pano escuro e áspero tinha sido colcha sobre a arca, reposteiro na parede, coberta de verão sobre a cama, xaile para cobrir as costas.
A minha avó fez dele uns calções para eu vestir e uma sacola para levar o livro e a pedra de ardósia para o meu primeiro dia de aulas.
Reutilizou aquele pano uma e outra vez. Tornou-o peça de múltiplos usos, deu sentido àquilo que era escasso num tempo de abundantes privações.
Eu tinha sete anos, e aqueles calções de tecido igual à sacola com alça que levava ao ombro enchiam-me de orgulho ao ser levado pela mão da minha mãe para a primeira aula.
Embora humilde, a roupa que eu vestia era um traje de perfeição, costurado pela arte da minha avó de um tecido antigo para colmatar as carências do neto.
Em vez de roupa com remendos que eu via noutras crianças no portão da escola, eu vestia uns calções costurados com a arte e o amor da minha avó, estilista da simplicidade, que de um pano secular deu vida nova para meu orgulho e vaidade.
Meses depois a minha avó partiria para o oriente eterno, talvez para dar vida a outros trajes nalgum lugar do infinito, mas a memória dela, dos calções e da sacola para o meu livro no primeiro dia de aulas, ficaram comigo para sempre.
Até hoje.
