O padre responsável pela distribuição dos alimentos da Cáritas fazia exigências muito pouco cristãs. As mulheres que lhe suplicavam ajuda para os filhos só recebiam a comida enviada pelo Tio Sam no final do mês.
Se esfregassem o sobrado da igreja todas as semanas.
Se limpassem o sarro às estatuetas dos santos.
Se assistissem à missa todos os domingos.
Se cumprissem estas penitências semanais receberiam uma senha de presença que dava direito a receber a ajuda vinda do outro lado do Atlântico. Só no final do mês. O padre copiava a modalidade do passageiro frequente das companhias aéreas: somar pontos para receber um benefício suplementar.
A minha mãe era uma das vítimas do clérigo de sotaina preta. Uma penitente que implorava por um pedaço de pão. Não lhe bastava cuidar do rancho de filhos e padecer sob as violências do marido bruto. Não lhe bastava trabalhar de sol a sol na quinta do senhor feudal para ganhar umas moedas e comprar farinha para a broa, azeite, macarrão, açúcar, café, petróleo para o candeeiro de iluminação.
Derreada por um cansaço que a consumia, ainda tinha de submeter-se à tirania do padre ao fim de semana: ao sábado lavava e limpava a igreja, ao domingo assistia à missa. O céu alcançava-se com sabão amarelo e lixivia, dores nas costas e joelhos esfolados.
O padre agia como um despótico merceeiro, um César de aldeia a distribuir migalhas, a mercadejar Deus com a ajuda enviada das Américas.
A minha mãe envelhecia ao fim de semana ao arrastar-se por aquele chão de tábuas em lavagens e rezas. Tudo por um pedaço de pão, um púcaro de leite em pó, duas malgas de farinha, um pedaço de queijo processado do Wisconsin.
Do altar, o nazareno observava as homilias do padre e assiduidade das penitentes. Como a minha mãe.
