Se já confessou alguma transgressão sabe como é difícil deitar cá para fora a desconformidade das suas ações. Então quando somos crianças, achar que comer umas amoras selvagens é um acto pecaminoso, que dizer das ações dos adultos que lesam as crianças que comem, não amoras, mas violações e pancada de criar bicho.

Se o acusarem de merdas que não cometeu, e sentir a injustiça queimar mais que uma brasa na mão fechada, perdoe se for capaz, se não for e temer o braseiro do inferno, torne-se budista onde a noção de pecado não existe.

Leia “Pecados para confessar”, uma história de vida, não por temer o mafarrico, mas porque eu já senti a maledicência dos injustos e escrevi esta história para si.


#4 Pecados para confessar

As palavras do padre traziam lume, e nós, garotos de oito e nove anos, sentindo o traseiro a arder com os tições pulámos no banco da catequese: «O inferno é uma fogueira do tamanho desta igreja com os pecadores a arder no meio das labaredas, quem não se confessar para estar limpo para a comunhão solene de Domingo, vai parar ao inferno», advertiu o sacerdote.

Que porra! Ó senhor prior, então e o extintor do perdão? E o bálsamo do amor ao próximo?

Saímos da sacristia de coração aflito. Juntámo-nos no adro e partilhámos o tamanho dos nossos pecados, a ver se havia alguma esperança de nos safarmos das chamas do mafarrico. Éramos pecadores muito modestos: eu tinha atirado uma pedra ao cão do sapateiro e nem sequer acertei no bicho, o Aleixo tinha apanhado um cacho de uvas na vinha do Neves, o Félix espreitado a vizinha a despir-se para tomar banho, o Flávio chamou cabrão ao merceeiro por não lhe vender rebuçados, o Quintino tirou ovos do ninho de perdiz para lhe chupar a gema, o Alfredo mentiu à professora por não ter feito os trabalhos de casa, o Tomás atirou o gato para dentro do tanque a ver se o bicho sabia nadar, o Abílio pasmou-se nas nádegas da Guiomar que diziam andar a enganar o marido.

Seriam os nossos pecados causa suficiente para almas tão tenrinhas caírem no braseiro? À cautela pusemo-nos todos na fila para o confessionário.

Na guarita do terror o padre escutava as nossas confissões e determinava a moldura penal: a mim despachou-me com vinte pai-nossos e vinte ave-marias, frente ao altar. De joelhos, afirmou de dedo em riste, não fosse eu querer cumprir a pena mais aliviado, sentado no banco de pau.

Cumprida a punição saí para o exterior da igreja, leve e bem-disposto como se me libertassem da penitenciária. Sentei-me à sombra das amoreiras que rodeavam o adro. Reparei que algumas tinham amoras maduras. Limpo de pecado e leve como uma borboleta, trepei a uma delas para degustar umas quantas, um pequeno prémio por me tornar bom cristão.

Dona Francelina, a cozinheira e prima do padre, viu-me na árvore de lábios lambuzados e repreendeu: Sai já daí pecador. Porquê?, ousei perguntar, estou limpo de pecado, não fiz nada de mal. As amoreiras são da igreja, atirou a Francelina, e tu estás a roubar a comida de Nosso Senhor.

Saltei para o chão. O pecado de furto era bem mais grave do que atirar pedras ao cão do sapateiro.

Entrei de novo na igreja e pus-me na fila para o confessionário. Todos os putos da catequese lá estavam de rosário na mão. Éramos reincidentes.

Tínhamos papado a comida de Nosso Senhor.


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#1 Açoites à nascença
#2 O mundo visto da cesta
#3 Já fui um ser alado
#4 Pecados para confessar
#5 Por um pedaço de pão
#6 A sacola e os calções
#7 O milagre de Jesus
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